Aulas

O Curso Zen oferece aulas regulares semanais às quartas-feiras de 19 às 22h.

As aulas são constituídas por uma atividade prática (meditação zen) e por exposição teórica dos conceitos da filosofia Zen. São distribuídas apostilas e há o acompanhamento de um livro como base do estudo. O objetivo é o de conscientizar as pessoas, através de uma linguagem simples e clara, sobre seus atos; promover em si mesmas atitudes que podem gerar harmonia e bem estar e compreender atitudes que produzem desequilíbrio e sofrimento. Para tanto, são dados exemplos cotidianos que fazem os sujeitos se reconhecerem e criarem recursos internos para mudanças efetivas.

Local: Rua Eduardo Guinle, Botafogo

Investimento mensal: R$ 450,00

Quero dar as boas vindas a todos e me apresentar. Sou graduada em Psicologia e tenho formação em Psicanálise. Minha prática consiste em consultório particular e docência.

Sou praticante do Zen Budismo desde 2003. O encontro com o Zen Budismo se deu por uma procura intuitiva. Algo estava faltando naquilo que parecia ser um campo espiritual.

Silenciosamente, pesquisei na livraria algum livro que pudesse me guiar nesta procura. Encontrei um que me foi muito esclarecedor: “Procurando por Deus” (Steven Sadleir). Tratava-se de um pesquisador que havia dedicado 20 anos de sua vida conhecendo os principais grupos, instituições e seitas religiosas do Oriente e do Ocidente. Ele fez um apanhado claro e profundo sobre cada uma delas.

Lendo o livro, identifiquei que o Zen Budismo guardava muitos traços em comum com meus valores e crenças construídos até ali. E me pareceu também que o Zen tinha algo a ver com a Psicanálise.

Decidi que procuraria um Templo Zen Budista para aprender a prática de meditação. Assim o fiz. Muito aprendi ali. Fiz laços os quais são parte integrante da minha vida. No entanto, como todas as instituições, havia problemas. Alguns deles estruturais, os quais pude identificar como extremamente difíceis de serem transpostos e que contrariavam radicalmente a prática do Zen.

Percebi claramente que a prática Zen já estava bastante assimilada e que não requeria necessariamente a vinculação a um Templo. Decidi, a partir de uma dada época, que não frequentaria mais.

Venho trilhando o caminho da meditação e da prática Zen, tal como o da Psicanálise, sem filiação a uma instituição. Diferentemente, cultivo trocas genuínas e verdadeiras com alguns que considero meus pares, por afinidade de propósitos com ambas as práticas ou com uma delas.

Bem, se faço esta preliminar é porque julgo que possa servir a alguns para pensar seus trajetos existenciais.

Acredito que é possível nos filiarmos a um pensador, a uma instituição, assim como muitas vezes é necessário o desprendimento para nos afastarmos dos mesmos quando entendemos que é necessário.

Além disso, penso que é importante que saibam algo daquela que elegeram ser um veículo, ou uma mensageira de um ensinamento (Dharma) como este.

É com muita alegria que transmito a vocês a proposta de aproximação do Zen Budismo.

Gostaria de ressaltar que afora o apelo de marketing que fizeram vocês chegar até aqui - panfletos, email marketing, indicação de alguém que já fez o Curso etc - é interessante pensarmos algumas questões que parecem concorrer para que as pessoas digam algo que ouvi de quase todos, de diferentes formas, ao telefone: “Vi um panfleto sobre o Curso... gostaria de fazer... não tenho experiência... mas acho que é o que preciso agora... não é à toa que vi esta proposta... procurava por algo assim...”

Enfim, o que me chama a atenção é que, embora não se saiba exatamente o que é, todos que se inscreveram, acreditaram que valeria a pena o risco.

E, neste caso, devemos considerar que não é um Curso qualquer; é diferente de se inscrever num curso de inglês ou informática. Trata-se de um Curso onde o sujeito estará exposto, submetendo-se a uma prática existencial. Ele necessariamente terá que interagir e “falar ou mostrar de si mesmo” ou, no mínimo, presenciar, testemunhar a exposição de outros, fato que, por si, já pode ser causador de muitos incômodos e desconfortos.

Digo isso para validar tal atitude. E isso não é só um elogio, serve, principalmente, para dizer-lhes que esta atitude é um disparador de uma mobilização que implica sim um risco, mas que, sem isso, não há processo de autoconhecimento.

Podemos pensar assim, me lanço em um terreno onde não conheço, mas que acena com uma perspectiva que me interessa muito: equilíbrio. E vou. Muitos vislumbram uma possibilidade de ter bem estar, mas não chegam nem perto de fazer algum movimento que possa levá-los a isto. Medo? Apego? Veremos mais adiante o quanto o sujeito se agarra a alguns estados, ainda que saiba, em algum lugar de si mesmo, que não está bem.

De qualquer forma, não é tão simples. Mesmo tendo esta atitude - a de correr o risco de ingressar numa proposta como esta - ainda não é suficiente. Precisamos ir além. Por que digo isto?

É comum vermos, na atualidade, promessas de bem estar. Precisamos estar atentos às armadilhas que são produzidas na contemporaneidade, no campo do autoconhecimento.

De um lado, a oferta maciça de serviços que prometem bem estar; de outro, um público voraz por felicidade ou pela sensação mínima de apaziguamento de sua infelicidade.

E é exatamente aí que precisamos atentar. A banalização do bem estar faz com que as pessoas se interessem por toda e qualquer novidade que apareça no mercado.

Penso que há aí uma ambigüidade posta: por um lado, é uma proposta que me interessa como produtora destes resultados que promete e, aí, vale o risco; por outro, já me arrisco tanto, consumindo tantas outras promessas de bem–estar, apaziguamento, por que não também esta?

O problema criado a partir deste equívoco é o de que o sujeito consuma muitas terapias alternativas, cursos, para não chegar justamente onde precisa: perto de si mesmo, conectando-se com aquilo que, de fato, importa.

O que podemos pensar é que a banalização dos serviços de promoção de bem estar acabou por naturalizar o risco do desconhecido. Se por um lado isto pode ajudar o sujeito a encontrar de fato algo interessante dentro deste arsenal de ofertas pode também, dentro de uma perspectiva superficial, justificar a inércia constante com a ilusão do movimento. Ou seja, é legitimado o seguinte pensamento: “vou ver qual é, se der certo, ótimo; senão terá sido mais uma experiência...” Quase como lidamos com um entretenimento. Vou ver qual é deste filme, deste restaurante, desta nova modalidade de ginástica e etc.

Não pedirei a vocês, obviamente, um comprometimento antecipado com a prática. Mas é fundamental que se proponham a experimentá-la com diligência, firmeza e abertura para algo que de fato possam conhecer como novo e que poderá ajudá-los em suas vidas.

É claro que alguns balizamentos estão postos e isso faz com que possam confiar nesta proposta. Alguém com uma formação acadêmica clara e com um número que pode ser identificado em sua classe. Mas, penso que isso, embora fundamental, não tenha feito vocês se decidirem pelo ingresso no Curso.

A minha hipótese é a de que a mensagem ali colocada é de algo que vocês reconhecem como tendo consistência teórica e prática e, ao mesmo tempo, é acessível e sensível as dificuldades existenciais.

Acredito que este seja o diferencial e por isso estamos aqui reunidos.

Na próxima aula detalharemos a proposta propriamente dita.

Então, vamos à proposta. A proposta é a de apresentar os fundamentos do Zen Budismo, para tanto será necessário a instrução da prática da Meditação e as ideias centrais que a sustentam.

Farei articulações teóricas, com exemplos práticos, entre Psicanálise e Zen, demonstrando como ambos podem se complementar.

Quero destacar a importância quando formamos um grupo com este propósito: o de conhecer e praticar o Zen. A este grupo chamamos sangha. Este grupo tem em comum, verdadeiramente, este propósito, e isto é algo marcante para iniciarmos a prática.

Digo isto, porque cada um de vocês, certamente, veio para cá com um ou mais propósitos que podem ou não ser convergentes. Mas isso não é importante. O que faremos é construir um campo onde as diferenças possam ser reveladas e a natureza e expressão de cada um possa se manifestar e expandir.

Teremos as ferramentas necessárias e um guia neste processo. Caberá a vocês o empenho para que a Meditação e os ensinamentos possam agir e desenvolver o potencial de cada um.

Trabalho com subjetividade há 21 anos. Tenho percebido ao longo destes anos o quanto o modo de expressão verdadeira dos sujeitos tem sido desestimulado por diversos mecanismos: políticos, midiáticos, religiosos, familiares, mercadológicos, científicos, tecnológicos, psicológicos, educacionais etc.

Tudo isso sabemos que acontece, mas, muitas vezes, não nos damos conta de como nos posicionarmos diante desta enxurrada de estímulos e informações que acabam por produzir dispersão, fragmentação.

É estarrecedor e paradoxal que o homem tenha produzido tantos mecanismos que, a princípio, seriam para evolução, e estes mesmos engendrem tanto desconhecimento de si, causando tantas doenças. O afastamento de si mesmo, daquilo que é a essência de cada um é algo crescente atualmente. É bem verdade que esta essência é dinâmica, mutável, mas o que quero enfatizar é que na contemporaneidade os sujeitos estão fragmentados e desesperados atrás de algo que dê algum tipo de suporte e que se apresente como uma possibilidade de identificação.

O movimento é no sentido de que algo faça sentido. E a sensação é a de que quanto mais se faz, menos se alegra, quanto mais se compra, menos se satisfaz; quanto mais se busca um parceiro, mais se identifica desencontros; quanto mais se exercita, mais adoece, quanto mais se analisa menos se conhece. Quanto mais relações sexuais, menos prazer. É como se tudo fosse muito fraco de sentido. Nada durasse muito.

O esforço é grande e o resultado pequeno, difuso e muitas vezes instantâneo demais para deixar uma marca subjetiva importante, onde o sujeito possa dizer a si mesmo: “puxa isso vale a pena!” A densidade subjetiva deu lugar à superficialidade corpórea, causando mais dualidade e desentendimento.

Há um culto ao narcisismo. O EGOCENTRISMO, de novo, toma a cena. É obvio que não estou aqui só para denunciar o lado obscuro da vida atual. Mas acho importante pensar neste ciclo que, na maior parte das vezes, estamos chafurdados e que não fazemos outra coisa senão reclamar de nós mesmos e daquilo e daqueles que estão à nossa volta.

Produzimos e reproduzimos, muitas vezes, falas repetidas de descontentamento e queixas. “Alugamos” e somos “alugados” o tempo todo. Ouvimos um pouco o outro, não entendemos e até estranhamos sua fala e imediatamente desatamos a falar ou despejar nossas agruras diárias. Haja dinheiro para pagar a conta do telefone e, principalmente, fôlego para falar, falar e falar... Sem nada ser dito.

Dispêndio de energia, de grana, de tempo. A ilusão de que a cada catarse nos aliviamos um pouquinho. E a crença de que o que resta é evitar o desprazer. E, sobretudo, o reforço egóico constante de que não podemos mudar e o outro também não mudará. Será uma mera coincidência, tanta incidência de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), Transtornos Bipolares, Síndrome do Pânico? “Obsessivizo”, “histericizo”, deprimo, ou aciono um e outro mecanismo alternadamente?

Seria cômico se não fosse trágico como está a Subjetividade Contemporânea. Este ciclo no Zen chama-se: samsara. O ciclo de nascimento e morte. Onde o sujeito fica rodando em volta de algo que parece um EU e desconhece a si mesmo e o mundo a sua volta.

EGOCENTRISMO é a conseqüência de samsara. A proposta do Zen é a de conscientização de nossos atos e a interação com o mundo de forma serena. Através da meditação, conseguimos exercitar a PLENA ATENÇÃO.

Com o recurso da PLENA ATENÇÃO, somos aptos a ver com clareza o que importa e descartar o que só faz ruído em nossas vidas, o que é superficial e gera KARMA (conceito que será explicitado mais adiante) e o que é profundo e promove o BEM.

Veremos o Caminho que Sidarta Gautama trilhou para deixar-nos o dharma (ensinamento). O Caminho proposto pelo Zen é o Caminho do Meio. Tão propalado e tão mal entendido. O Caminho do Meio exige a extinção da dualidade, tal como na Psicanálise. Não há polaridades e sim uma observação, percepção, compreensão e entendimento de conteúdos formais da Realidade, de acordo com o contexto e a dinâmica da vida. A partir daí, podemos pensar um sujeito singular. Sujeito este que “interexiste” e “interdepende” de tudo que há no universo.

O Caminho do Meio exige do sujeito desprendimento, desapego. Desapego ao eu, para reconhecimento de si num nível mais inconsciente e profundo. O Eu, tal como pensado no Ocidente, se antecipa aos acontecimentos, colocando o sujeito sempre no passado ou no futuro, tirando-o a possibilidade de viver o presente tal como ele se apresenta.

Através da prática meditativa, do estudo da teoria do Zen Budismo e da compreensão de alguns aspectos da Teoria Freudiana e de muito empenho de vocês, trilharemos o caminho da sabedoria, que nos leva a insights (satori ) e estados de iluminação, (samadhi). Freud chamou este estado de: esclarecimento (aufklarüng).

Os japoneses têm um ideograma que sintetiza esta idéia. O ideograma é da mente e coração juntos. A ação precisa é aquela que unifica coração-mente. Neste estado o sujeito não hesita, neuroticamente, ele age saudável e precisamente.

“O samurai só desembainha sua espada se for para usá-la; e o faz com precisão”. O Zen propõe a maciez da seda e o ferro afiado.

É preciso “desconstruirmos” a pré-concepção de que ser Zen é ser indiferente, distraído, passivo etc. Ao contrário disso, ser um praticante Zen é estar PLENAMENTE ATENTO, sem estar acelerado, estressado e agitado. Este equilíbrio se dá basicamente pela harmonia entre aquilo que iremos estudar como sendo as oito consciências.

A proposta que faço a vocês é a de que comecemos uma ascese firme, diligente, com leveza e seriedade.

Mas o que mais importará neste processo será a ALEGRIA de estar buscando o bem estar profundo. A generosidade, a compaixão, a serenidade, a tolerância e a alegria de viver serão os motores desta prática.

O Zen não é religião, não é uma doutrina, não é um ensinamento puramente. Trata-se de uma filosofia de vida, um estilo, uma ascese que, se bem praticada, causa uma revolução silenciosa com efeitos no nosso entorno.

A transmissão do Zen, tal como da Psicanálise, não se dá só pela teoria, mas principalmente pelo exercício prático. A meditação está para o Zen tal como a análise está para Psicanálise.